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Revista O PAPEL

PALAVRA DO PRESIDENTE
Maiol 2008

"Enquanto o varejo brasileiro não tomar consciência de que será ele a ganhar com um melhor acondiciona­mento de frutas, verduras e legumes, dificilmente a situação do embalamento impróprio irá se corrigir no Brasil, persistindo falta de higiene, perdas imensas e proliferação de doenças, fungos e bactérias. Do produtor rural ao atacadista e varejista, passando pêlos consumidores, persiste certa prevenção, pois ainda não há a per­cepção de que poderiam trabalhar, comercializar, receber e consumir produtos melhores, mais saudáveis e ao mesmo tempo realçar seu valor." A observação é da dra. Anita de Souza Dias Gutierrez, coordenadora de Projetos do Centro de Qualidade em Horticultura da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp).

A dra. Anita ainda prossegue: "Há muito a ser feito na modernização da rotulagem e das embalagens de hortifrutigranjeiros no Brasil, mas tenho certeza de que está ao alcance dos supermercadistas a decisão de melhorar a situação atual, passando para um embalamento de primeiro mundo. No momento em que os supermercadistas, especialmente as grandes redes, vierem a exigir, por exemplo, embalagens de papelão ondulado - descartáveis, higiênicas e recicláveis -, os produtores e ataca­distas terão a motivação latente para sua definitiva adoção".

Para Anita, é evidente que as grandes redes têm como calcular as perdas de frutas, legumes e verduras causadas por empilhamento a granel, manuseio excessivo - os brasileiros têm o costume de apertar e machucar as frutas para verificar seu estado - e pela contaminação que frutas amassa­das rapidamente passam ao restante da pilha ou caixa. "No caso dos tomates as perdas são da ordem de 30%, um índice absurdamente elevado num País onde há tanta gente padecendo por falta de alimento. São milhões de toneladas para o lixo", denuncia.

A dra. Anita admite, entretanto, que o processo de mudança é bastante com­plicado, pois envolve produtores rurais de todos os portes e uma infra-estrutura atual de centrais de abastecimento antiquada e ultrapassada, que não per­mite o uso ágil de empilhadeiras e de paletes, além de controles higiênicos mais amplos, não só no atacado, mas também em pontos-de-venda do vare­jo. "De nada adianta o produtor rural acondicionar seus produtos adequada­mente, em embalagens corretamente dimensionadas para proteger cada tipo de fruta, por exemplo, se no ponto-de-venda os varejistas insistirem em expor tudo a granel."

Hoje, não faltam evidências de que a situação é crítica. "Nos caminhões que partem diariamente da Ceagesp há caixas de todos os tamanhos e materiais, num complicado quebra-cabeça de realizar a carga da melhor maneira possível, geralmente improvi­sando, o que amplia as perdas", conta Anita. Para reverter essa situação, só utilizando embalagens padronizadas, moduláveis e práticas. "E isso, hoje, quase ninguém pratica", aponta a dra. Anita, uma das grandes especialistas do Brasil no assunto "qualidade de hortifrutis".

BONS SINAIS

"Há diversos setores bem organiza­dos e profissionais na fruticultura bra­sileira atualmente, como os produtores de maçãs do sul e os de frutas tropicais do Vale do São Francisco e do Nordes­te, aliás, grandes exportadores. Este mercado utiliza embalagens de papelão ondulado para o mercado doméstico e nos destinos ao exterior, devido à proteção e higiene que oferecem, além do fato, a ser sempre lembrado, de serem recicláveis e biodegradáveis", acrescen­ta a especialista.

Para ela, a consciência quanto à importância de um sistema de emba­lamento e de logística profissionais vem se ampliando no Brasil por parte dos produtores de frutas. Da mesma forma, a questão da qualidade final dos alimentos está se firmando como preocupação dos consumidores. "Entre­tanto, a questão tem sua complexidade, mas que deve ser enfrentada com deter­minação. Temos barreiras estruturais, culturais e até legais a superar. Com a normatização em vigor, implantada pelo Ministério da Agricultura, deve­remos presenciar a grande mudança no mercado brasileiro, nas centrais de distribuição e no embalamento e co­mércio de frutas, legumes e verduras. g Muita coisa já mudou e vai mudar para melhor, mas o processo seria mais ágil e melhor executado se o varejo brasileiro, os supermercadistas em especial, aderissem à mudança, por via da efetiva conscientização de sua importância e dos ganhos compensadores que segu­ramente trará", finaliza Anita.

Por Paulo Sérgio Peres
Presidente da Associação Brasileira do Papelão Ondulado. 
abpo@abpo.org.br

 

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